Alexandre
Flores
25 de outubro de 2018 ·
Manuel Gil, do seu nome completo:
Manuel António Gil Lopes, uma das figuras típicas de Almada… a caminho dos seus
94 anos de idade …
Manuel Gil, um homem culto, simples,
meigo no sorriso e na expressão dos seus olhos. Um homem, quase sempre
revoltado com a vida, de trato oscilante entre uma natural afabilidade e uma
aparente rudeza, onde a tristeza e alegria se entrelaçam. Com fiéis
admiradores, são conhecidas as suas intervenções, em eventos culturais, através
das suas palavras de improviso, de progressista, perante a entusiástica
estupefação da assistência. Uma figura irreverente que prefere dizer que só tem
a 4.ª classe, mas que não tem medo dos doutores… Quem não se lembra das
gargalhadas dos ouvintes quando o Manuel Gil conta as suas histórias vividas…
Quem não se lembra do seu poder da palavra, com sentimento e, ao mesmo tempo,
com pragmatismo, onde se alia à linguagem gestual, a sua singularidade que está
na voz do Povo, com o qual se identifica e a que se orgulha pertencer.
Então, quem é o Manuel Gil?
Muito resumidamente, o
"Gil", de origem humilde, nasceu na Rua das Quintinhas, em Lisboa,
muito perto da actual Assembleia da República, passando depois a viver a sua
infância e adolescência no bairro da Madragoa. Na conhecida Livraria Barateira,
em Lisboa, trabalhou muitos anos, na qual conheceu e conviveu com muitos
escritores, actores e artistas, como: Ferreira de Castro, Jesus Caraça, Maria
Lamas, Álvaro Salema, José Saramago, Jaime Brasil, Bernardo Santareno, Romeu
Correia, José Viana, Raúl Solnado,...
Frequentou as pitorescas casas de
fado de Lisboa. Por exemplo, a «Luso», a «Adega Machado», a «Severa» (no Bairro
Alto), e outras, como o restaurante típico «Pancão» (em Almada, hoje
inexistente). Neste meio, conviveu com muitos fadistas, tais como: Alfredo
Marceneiro, Amália Rodrigues, Carlos Velez, Fernanda Baptista (sua prima),
César Morgado, Fernando Maurício, Maria Amélia Proença,...
Nos princípios da década de 1950, já
casado, viveu algum tempo no Monte de Caparica, mudando de residência para
Almada, onde ainda reside nos nossos dias. Para além da sua actividade
profissional, o Manuel Gil continuava e continua a cantar, de quando em quando,
o fado, a ler muito, a desenhar rostos ou caricaturas de figuras humanas e,
ainda, a escrever diariamente as suas notas críticas sobre os programas que vê
e ouve dos canais da Televisão. Continua a nutrir uma grande admiração pelo
poeta António Aleixo, ao ponto de o recitar todos os seus poemas sem qualquer
papel. Depois de trabalhar na referida Livraria Barateira, passou a laborar até
à idade da reforma, na área da estiva, no controle da entrada e saída das
mercadorias no Parque dos Contentores da «Frenave».
Quando estamos com o Manuel Gil,
sentimos a sua sincera amizade, a sua alegria, a sua força anímica, a sua
lucidez e, ainda, a sua prodigiosa memória que, não obstante a sua avançada
idade, ele conhece todos os nomes, as datas e os factos. Como sucedeu, no
passado dia 23 de Outubro de 2018, num restaurante popular de Almada, quando
estava a almoçar com o almadense Dr. Guilherme Santana Marques, surge de
repente o «Bocage dos nossos dias», como lhe chamo carinhosamente, acompanhado
do seu filho mais novo, o comdte. Gil Lopes, que, de imediato, nos veio dar a
sua cordial saudação. No fim do repasto, fez questão de nos oferecer um poema
escrito na toalha de papel (ver na imagem), que passamos a transcrever:
«Porque nunca fui menino / E muito
menos mimado / Sou desde bem pequenino / Um cidadão revoltado.
Comi buchas de pão duro / Descalço à
chuva e ao frio / Salvou-me a sôpa dos pobres / Vivi como cão vadio.
Estou a chegar ao fim / Duma longa
caminhada / Não tenham pena de mim / Nem eu lhes vou pedir nada / E aqueles que
por maldade / De mim tiveram inveja / Peço com sinceridade / Que boa sorte os
proteja» (M. Gil)
Antes da hora de despedida, sempre
com o seu sorriso meigo e espírito que lhe é peculiar, ainda nos cantou um
fado, que encantou todos os ouvintes que se encontravam a almoçar no
restaurante, agradecendo depois com prolongadas e merecidas palmas...
Para o amigo Manuel Gil, a nossa
singela homenagem. E que continue com força anímica e boa saúde pelos anos
fora. Um abraço do amigo e admirador de sempre, Alexandre M. Flores.
***
Nota: Manuel Gil, de acordo com o
nosso testemunho evocativo (ver a nossa página do FB), veio a falecer a 16 de
Setembro de 2020. O velório será realizado, no dia 18 de setembro
(sexta-feira), a partir das 10.30h., na capela do Cemitério Municipal do Feijó,
sendo o corpo cremado pelas 14h.